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Por Esteban Cárdenas
Esse texto foi publicado na revista digital argentina ODÁ, observatório de dança e estudos do movimento.


… duas pessoas entram no cenário. Se olham, entendem que uma ação está a ponto de acontecer. Sabem que qualquer decisão é importante e sabem, inclusive, que a não-ação é uma possibilidade como qualquer outra. Começam a dança, e com ela, quase inconscientemente, uma forma de meditação em movimento. Uma forma que nasce do momento, da íntima e invisível coesão entre eles, o público e o entorno. Assim flui até o final a poesia da dança, e com ela a participação ativa daquele que vê e propões… sem dizer palavra.

Improvisar não é fazer qualquer coisa, mas fazer qualquer coisa está permitido. Não existe uma cartilha para improvisar, e sim técnicas ou métodos que ajudam a desenvolver uma situação improvisada. Qualquer um pode participar de uma improvisação, mas o desenvolvimento que dela faça uma pessoa “conscientemente” treinada pode ser a abertura para uma gama de possibilidades muitíssimo maior.

Creio que a senha fundamental para o improvisador é poder estar “aqui e agora”, no momento presente, que é o futuro e a soma do passado. Estar presente é estar atento. Estar atento é poder fluir entre o instinto e o intelecto, sem se perder entre um e outro, encontrando um equilibrio do que “é”.

Há elementos a que podemos recorrer para elaborar conscientemente temas enunciados ou sugeridos dentro ou antes da improvisação. Fazer com que um “tema” (seja uma ação concreta, um movimento, um gesto, uma qualidade de movimento) se desenvolva se torna um elemento fundamental para não cair na produção inescrupulosa de material “desconexo” (falando somente do ponto de vista do espectador que espera ver uma linearidade na “narração” do espetáculo, embora, na verdade, alguém possa encontrar linearidade dependendo do ponto de vista). Desenvolver um tema é “escolher” um ponto de partida, e de lá elaborar o material seguinte. Esta elaboração é tão relativa como o lugar onde se situa cada improvisador.

Do ponto de vista de uma narração linear, onde se busca desenvolver uma história ou a evolução progressiva de um tema dado, o improvisador trata de somar a este “ponto de partida” elementos que se relacionem entre si, além de gerar uma história (sem esquecer a relatividade da palavra) tentar conquistar o espectador.

Um dos melhores paralelos que podemos traçar é com a improvisação no jazz. “Um músico se soma ao cenário com gente que não conhece, e só sabe que tocará em uma escala determinada, a um ritmo que só aparece quando o baterista marca a batida e, com sorte, se estabelece o gênero musical ou o tema que será improvisado. A canção começa e a linearidade está dada pela atenção que cada músico põe naquele momento, entre si, e em si próprio. Juntos, com a segurança do solo e a atenção de cada um como parte de um todo, se encontram na viagem até o final que decidem juntos, como um todo. “

Improvisar não é fazer qualquer coisa, mas fazer qualquer coisa está totalmente permitido.

Improvisar como destino, como tarefa programada, como espaço multidimensional onde o tempo já não é o que sabemos, e sim, o que conhecemos. O desafio está na sublimação de cada integrante. Saber, conhecer, saber por experiencia, saber por intelecto, que diferença!!

Em tempos de pobreza radical, a improvisação tem um papel fundamental na criação do dia-a-dia, do saber cotidiano, da resolução de como sobreviver. Saber, neste caso, vem direto da necessidade impulsionada pela própria necessidade, pela fome. Saber improvisar é saber sobreviver. Saber sobreviver é conhecer os mecanismos de casualidade, que nada têm a ver com azar, se é que ele existe.

Assim, improvisar se transforma em algo mais que estar atento, é sobreviver em qualquer situação, em qualquer momento e em qualquer aspecto da vida. Se a nós interessa somente a possibilidade de improvisar como espetáculo, então vamos incidir neste ponto e deixar o resto de lado.

É em vão dedicar-se a discutir sobre o significado de cada palabra ou classificar métodos pessoais para improvisar e generalizá-los quando existem tantos formatos possíveis quanto pessoas no planeta. Se bem que sabemos perfeitamente que há algumas linhas de pensamento que podem ser muito mais eficazes que outras, é sempre bom tê-las apenas como referência e se lançar ao abismo incomparável de sentir, de ser, aqui e agora.

Dizer que improvisar é conectar-se diretamente com a essência de alguém pode soar exagerado, embora não seja. Se concebemos o ato de improvisar como o fluir dentro de certos padrões estabelecidos, então aceitamos automaticamente que este simples e complexo ato – que é deixar-se levar pela mão da honestidade – é separar a sabedoria instintiva do homem do profundo de sua “informação genética”.

Para poder transmitir de maneira direta não há outra alternativa senão partir da honestidade. E não é a honestidade com o espectador, é consigo mesmo. Ser honesto em uma improvisação, não só implica em estar presente, atento ao momento, como também atuar pura e exclusivamente com os impulsos que nascem neste lugar, que não é a “mente racional”, que não é nenhuma das elocubrações que estão ligadas ao “desejo”, nem às posibilidades intelectuais que aparecem nos dizendo o que fazer. É o lugar da sensação pura, o espaço onde nasce esse impulso “irracional”, é a ponta de um novelo que se deixa levar no fluir que percorre seu próprio circuito e que é, sem dúvidas, o lugar onde nasce a honestidade: a intuição.

Aparentemente existem contradições se pensamos em “desenvolver um tema”, uma vez que nos esforçamos em “fluir” com o(s) sentido(s). Isso é apenas contradição, visto pela linearidade do nosso racionalismo. O lugar onde co-existem essas duas alternativas, lugar onde elas se transformam em uma única, lugar onde se radica a honestidade, lugar onde “parecer” e “ser” são a mesma coisa.

A essência divida das coisas é aquela conectada com esta indivisível unidade de um ser.

“cada célula tem sua própria música, inaudível para nós, mas necesaria na manutenção da harmonia dos tecidos. Com cores e sons, as células dialogam entre si. Nada no universo do organismo está quieto: elétrons, átomos, moléculas, células e rogaos, todos se movem e, ao fazê-lo, produzem uma vibração que pode ser registrada como som ou calor. Uma sinfonia de saúde na qual cada músico toca a sua nota. Quando algum grupo de músicos perde o ritmo, se produz a doença, um som discordante. Mediante o som ou a luz, é possível ensaiar de novo o ritmo perdido; e o corpo escuta. Um ponto de acupuntura reage ao som e à luz da mesma forma que responde a uma agulha. A pele também “vê” cores e “ouve” sons. A medicina hindu estudou o efeito saudável que os sons do alfabeto produzem nas distintas partes do corpo, e todas as medicinas indígenas utilizam os sons – seja da voz humana, um instrumento – para ajudar a recuperar a saúde, o som da harmonia.” Extraído de Bioenergética y vivencia, Jorge Carvajal.

Temos a possibilidade de receber informação em qualquer forma e de qualquer meio. Para chegar a essa informação, o improvisador deve treinar a sensibilidade, a percepção, a escuta: a atenção.

Por que não pensar que esta honestidade de que falamos nos conecta inevitavelmente com aquilo que é necessário fazer, em determinado momento, e que esse fazer pertence ao ambiente em que se desenvolve a dança? Desta maneira, a dança, a improvisação resultante será o necessário nesse lugar, para essa gente.

Então, esta “improvisação” é a conexão elementar com o ambiente, o lugar, com a atmosfera do momento, com aquilo que “deve” ser transmitido, comunicado e que está sendo pedido a gritos na linguagem silenciosa das sensações.

“O tato se expressa com o contato. O contato é relação. Quando dois amigos se abraçam, quando os amantes se amam, quando o amor se traduz no código da carícia, quando o curandeiro impõe suas mãos carretadas de intenção amorosa ou quando a mãe coloca suas mãos cálidas sobre o abdomen dolorido de seu bebê, a pele se converte em um radar do amor e as mãos são agentes do coração. O tato, que é o sentido mais denso, se expande até ser o mais sutil dos sentidos. Literalmente pode-se tocar com o olhar, acariciar com as palabras.” Extraído de Bioenergética y vivencia, Jorge Carvajal.

A intenção está diretamente ligada ao resultado. Se o que está passando pelo pensamento é diferente ou oposto à ação seguinte, teremos poucas esperanças de que a comunicação seja efetiva tanto com nosso companheiro como com o público.

Porém, estar atentos à intenção, não significa enredar-se na intelectualidade o una análise dos pensamentos. Só confiar no fluir com os sentidos é suficientemente “intelectual” para deixar-se levar e atuar.

No final, tudo vem a ser a unidade que sempre foi e é. O resultado não está para ser julgado ou avaliado segundo “preconceptos” estéticos (quase sempre ligados ao clasicismo greco-romano ocidental). Estamos diante de um verdadeiro processo de criação no qual a honestidade, a dignidade, e a fé com que o improvisador atua são os verdadeiros elementos que pautam e definem a verdadeira obra de arte.

Que fazer com a vontade? De onde tirar a força da intenção? Como se conectar com a “inspiração” que chega às vezes e às vezes não?

Encontrar-se, saber quem o outro é, vislumbrar nem que seja apenas uma pista de “para onde vamos” e o que queremos, é uma janela para clarear a improvisação.

“nos lugares mais recônditos da memoria, nos espaços mais silenciosos do nosso coração, se acende a chama da sabedoria. Cada vez que olhamos ao redor e vemos flashes de tudo o que é e o que não é, então estamos vendo com os olhos da verdade, do conhecimento, do amor.”


esteban cárdenas é bailarino, coreógrafo e professor argentino.


http://idanca.net/lang/pt-br/2008/12/11/o-lugar-onde-nasce-a-honest...

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Tags: dança, improvisação

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